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    Lar»Saúde»Ateliês de Nise da Silveira completam 80 anos
    Saúde

    Ateliês de Nise da Silveira completam 80 anos

    adminDe admin17 de maio de 2026Nenhum comentário10 minutos lidos
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    Ateliês de Nise da Silveira completam 80 anos
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    Experiência pioneira que transformou a história da psiquiatria no Brasil, os ateliês terapêuticos criados por Nise da Silveira completam, neste dia 18 de maio, 80 anos. A proposta era usar atividades artísticas coletivas como alternativas aos eletrochoques, isolamento e lobotomia, métodos predominantes na psiquiatria em 1946, quando foram criados. 

    Os ateliês hoje compõem o Museu de Imagens do Inconsciente (MII), no bairro Engenho de Dentro, na zona norte do Rio de Janeiro.

    Atualmente, o Museu abriga o maior acervo do mundo em seu gênero, com mais de 400 mil obras, sendo 128 mil tombadas pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Os ateliês da psiquiatra são considerados referência internacional ao substituírem práticas agressivas por uma abordagem baseada na escuta, na expressão criativa e na dignidade humana.

    Nascida em Maceió, em 15 de fevereiro de 1905, Nise Magalhães da Silveira foi uma médica psiquiatra que revolucionou o tratamento mental no Brasil.  Ela morreu em 30 de outubro de 1999, no Rio de Janeiro. 

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    Ateliês seguem funcionando Os ateliês terapêuticos de Nise da Silveira continuam em funcionamento até hoje. Eles se destinam a pessoas que precisam de algum tipo de cuidado. “São pessoas que atravessam dificuldades emocionais e psíquicas, sejam elas temporárias, pontuais ou mais permanentes”, explicou o coordenador de projetos da Sociedade Amigos do Museu de Imagens do Inconsciente, Eurípedes Junior.

    O que é produzido nos ateliês do Museu é objeto de estudo e pesquisa, visando “conhecer mais um pouco o mundo interno do ser humano e os processos psíquicos que pertencem a todos nós, independente de doença ou não”, diz Junior. Com isso, o museu abre um grande leque de pesquisa sobre o imaginário, as imagens e o tratamento.

    Ateliê do Museu de Imagens do Inconsciente – Foto: Divulgação – Museu de Imagens do Inconsciente

    Atualmente, 55 pessoas frequentam os ateliês do MII. As melhoras observadas são muitas, segundo a coordenadora dos ateliês do museu, psicóloga Adriana Lemos.

    “Nós temos, inclusive, três clientes que este ano começaram a cursar faculdades”, disse. Dois deles estão na Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio), cursando museologia e pedagogia, e um no Colégio Pedro II, cursando filosofia.

    O trabalho desenvolvido pelos terapeutas do MII proporcionou não só uma estrutura para que eles conseguissem passar nas faculdades, se aproximando cada vez mais do território, mas ainda construindo uma relação familiar mais digna, uma aproximação da família. “É importante que a família esteja mais presente”, afirmou a psicóloga.

    Atividades De acordo com Lemos, atualmente funcionam sete ateliês com atividades expressivas: roda de mulheres, voltado para questões femininas; pintura; cerâmica; ritmologia; corpo e movimento; atividades plásticas; e teatro. Os chamados “clientes”, como preferia Nise da Silveira, dos ateliês do MII são pessoas que frequentam o Sistema Único de Saúde (SUS) como usuários da saúde mental e são encaminhados para as práticas terapêuticas.

    Dentro do museu, a atividade proporciona uma nova linguagem, pela especificidade do trabalho direcionado para olhar a relação do mundo interno com o mundo externo. “Principalmente a pintura proporciona que essa linguagem chegue mais ao “cliente”, por conta da falta mesmo da palavra que, muitas vezes, não alcança o tamanho do sofrimento que a pessoa vive”, explicou Lemos.

    “Porque não é só um sofrimento psíquico, mas é toda uma vulnerabilidade social que permeia a vida das pessoas que vêm dos Centros de Atenção Psicossocial (Caps), da Clínica da Família, aqui para o museu. Quando esse usuário chega para o museu, a gente passa a se relacionar com ele como cliente, porque é dentro do método da Nise. E com esse olhar da pessoa ser ativa na relação e não passiva”, complementou a psicóloga. 

    Lemos informou que o “cliente” é então inserido em uma atividade não indicada pelos profissionais de saúde do museu, mas de sua preferência. “É ele que escolhe a atividade em que quer estar. Através dessa atividade, a gente vai se relacionando ali com a expressão dele, com a linguagem do inconsciente, com o que ele coloca nas imagens, na emoção de lidar com o objeto escolhido para essa expressão”.

    Com isso, os profissionais vão também ampliando essa relação terapêutica e contribuindo com a área social do “cliente” e suas vulnerabilidades.

    Essência de tudo O psiquiatra Lula Wanderley trabalhou com Nise da Silveira durante oito anos, na Casa das Palmeiras, desde que chegou ao Rio de Janeiro, vindo de Pernambuco, em 1976. “Foi uma época muito bonita na minha vida”. Em todo o trabalho que desenvolveu após esse convívio com Nise, Lula Wanderley disse à Agência Brasil sentir muita nostalgia da Casa das Palmeiras.

    Idealizada por Nise, a Casa das Palmeiras é uma instituição de reabilitação psiquiátrica com atividades expressivas, terapêuticas ocupacionais, que são realizadas em regime aberto. Ali, Nise da Silveira ia às quintas-feiras para dar supervisão às equipes médicas que trabalhavam no local.

    Na avaliação de Lula Wanderley, os ateliês de Nise “são a essência de tudo”. A partir dali, criou-se uma relação humana muito produtiva. “Não acredito que possa haver um tratamento de alguém se não tiver uma relação humana muito genuína, um ambiente plural e criativo em que as pessoas possam desenvolver um convívio terapêutico”.

    Outros ateliês O modelo dos ateliês é replicado também em outros locais. O diretor-geral do Centro Psiquiátrico do Rio de Janeiro (CPRJ), unidade da Secretaria de Estado de Saúde (SES-RJ), Francisco Sayão, assegurou à Agência Brasil que todos os psiquiatras que compartilham as ideias de Nise da Silveira tentam dar sequência ao que ela fez, colocando o que as pessoas sabem em funcionamento nos ateliês de tratamento.

    Segundo Sayão, nos ateliês em funcionamento no CPRJ, criados seguindo o modelo de Nise da Silveira, ele constata que o paciente é o protagonista do que está fazendo.

    Um desses pacientes artistas é Israel Alves Correia, conhecido pelos dragões que confecciona no ateliê de arte e que ele mesmo foi desenvolvendo a partir de materiais diversos, como embalagens, vidros de shampoo, joelhos de PVC, entre outros.

    Israel informou à Agência Brasil que durante 18 anos construiu cabeças de boi, berrantes, mas acabou optando por criar dragões. Uma de suas inspirações foram as obras de barro de Mestre Vitalino. Israel trabalha com durepox (massa epóxi bicomponente de alta resistência e secagem rápida) e não tem intenção de realizar uma exposição de suas obras, nem de vender. “Não vendo nada do que é meu. Quem quiser ver meus trabalhos venha aqui”, diz. 

    Israel Alves Correia e seus dragões – Foto: CPRJ/Divulgação

    Protagonismo e cuidados A terapeuta ocupacional do CPRJ Eni Nascimento considera os ateliês de Nise da Silveira um ancoradouro. “O paciente se ancora nesse fazer que a arte permite e ele consegue transitar entre esse espaço da loucura e da sanidade com bastante segurança, fazendo coisas que, se não houvesse esses espaços, a gente não conseguiria”, disse à Agência Brasil.

    Eni destacou o que considera um “insight” da dra. Nise. “Já naquela época, ela via possibilidades desse sujeito produzir, se mostrar de uma maneira bem bacana. Para mim, os ateliês são espaços de ancoragem dessa clientela de saúde mental, que encontra ali possibilidade de circular entre o espaço da sanidade e o espaço da loucura”.

    Os “clientes” desenvolvem trabalhos que se destacam pela delicadeza e cuidado. Eni citou o caso de Israel Alves Correia, considerado um paciente gravíssimo, com histórico bem difícil e em que, no momento em que está produzindo no ateliê de arte, “não existe loucura”. Todo o projeto foi desenvolvido por ele.

    No CPRJ, além do ateliê de arte, que engloba pintura e escultura, funciona o ateliê de bordado. Nesses espaços, não existe diálogo de doenças, mas de cuidado, e isso surte um efeito muito grande e acaba dando sentido para a vida das pessoas que participam. “Para mim, tudo que eu vejo hoje na prática são referências da dra. Nise. Um retrato bordado da médica psiquiatra foi confeccionado no ateliê, em março deste ano, junto com os de outras mulheres consideradas referência no país.

    Público Os 80 anos dos ateliês terapêuticos criados pela doutora Nise da Silveira serão comemorados pelo MII ao longo deste ano, com atividades gratuitas, cujo início está marcado para o próximo dia 18, durante a 24ª Semana Nacional de Museus, que se estenderá até o dia 24 deste mês. 

    A semana é promovida pelo Instituto Brasileiro de Museus (Ibram), com apoio do banco Itaú, e tem como tema Museus: unindo um mundo dividido. A comemoração dos 80 anos dos ateliês terapêuticos de Nise da Silveira é simbólica, porque 18 de maio marca o Dia Nacional da Luta Antimanicomial e 20 de maio foi a fundação do Museu de Imagens do Inconsciente (MII).

    Dentro das comemorações dos 80 anos dos ateliês terapêuticos de Nise da Silveira, serão abertos ao público uma vez por mês. “Para que o público possa participar dessa experiência de criação livre, espontânea, dentro de um ambiente de acolhimento e de liberdade de expressão”, destacou Eurípedes Junior

    O primeiro ateliê aberto está programado para o dia 23.

    Durante o ano todo, em cada mês, o processo se repetirá com ateliês abertos de cada especialidade, sendo o de pintura o mais antigo e carro-chefe, revelando grandes talentos, pessoas que utilizaram sua criatividade para encontrar um caminho de vida, de sobrevivência no mundo, como ressaltou Eurípedes Junior.

    Programação As comemorações incluem o fórum científico batizado A Emoção de Lidar – 80 anos da terapêutica segundo Nise da Silveira, organizado pelo Grupo de Estudos do Museu, criado pela própria Nise em 1968 e que continua funcionando até hoje.

    A Emoção de Lidar foi o nome dado pela psiquiatra para identificar seu método terapêutico, copiado de expressão usada em poema por um de seus pacientes, ou “clientes”, como ela preferia chamar, da Casa das Palmeiras.

    A programação inclui ainda, entre outros eventos, a exposição Geometria e Cor, de Manoel Godin, artista contemporâneo do ateliê; lançamento do documentário Um caminho para o infinito: Emygdio de Barros, com texto e roteiro de Nise da Silveira e direção de Luiz Carlos Mello. 

    O filme narra a trajetória de Emygdio de Barros, considerado um dos maiores nomes da arte revelado nos ateliês da médica psiquiatra.

    O Museu de Imagens do Inconsciente está fechando ainda parcerias no exterior para publicação de livros de Nise da Silveira em inglês, francês e espanhol. Vários projetos estão em andamento com esse objetivo de internacionalização do trabalho da médica psiquiatra brasileira. 

    O museu está também estreitando laços com instituições que já desenvolvem ateliês terapêuticos e querem fazer intercâmbio, de modo a formar uma grande rede de cuidados com essa prática. Outros querem implantar a teoria e a prática de Nise da Silveira, adaptando-as a seus países, para fazer frente aos tratamentos tradicionais que não atendem mais a modernidade.

    Em paralelo, a Sociedade Amigos do Museu de Imagens do Inconsciente está fazendo um grande esforço ainda para disseminação do conhecimento resultante dos resultados das pesquisas da médica no meio acadêmico, por meio de cursos de extensão e pós-graduação.

    A meta é que a psiquiatra seja mais estudada, além do nível simbólico da luta antimanicomial que representa. “A gente quer que as ideias dela penetrem no campo da saúde mental, da psicologia, da psiquiatria e das humanidades em geral”, afirmou Eurípedes Junior. 

    A programação disponível pode ser conferida aqui. 

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